Hades – Análise (Review)
30 de dezembro de 2025Eu tenho um tipo de fraqueza por jogos que me pegam pela mão nos primeiros minutos e, quando eu percebo, já estou completamente obcecado. Hades foi exatamente assim comigo. Eu comecei achando que ia ser “só mais um roguelike” daqueles de entrar, bater em todo mundo, morrer, repetir. Só que, na prática, ele é o tipo de jogo que faz você querer morrer de propósito só para voltar e conversar com todo mundo de novo, porque o mundo reage, as pessoas evoluem, as relações mudam e a história anda mesmo quando você falha. E isso é muito louco, porque falhar em Hades nunca parece perda de tempo. Parece avanço.
A primeira coisa que me fisgou foi o clima. Você é Zagreus, o filho de Hades, tentando escapar do Submundo. E não é aquela pegada sombria e “edgy” sem graça. Aqui o Submundo tem personalidade, tem humor, tem ironia, tem charme. Eu me senti dentro de uma mitologia grega estilizada, cheia de personagens fortes, com diálogos rápidos e inteligentes, e com um ritmo que nunca deixa o jogo ficar parado. Cada tentativa de fuga vira um episódio novo, com pequenas variações que dão aquela sensação deliciosa de “só mais uma run”. E quando eu dizia “só mais uma”, eu já estava indo para a quinta.
O que mais me surpreendeu é como Hades consegue ser ao mesmo tempo simples de entender e absurdamente profundo quando você decide se aprofundar. Ele não te assusta com uma parede de sistemas logo de cara, mas aos poucos vai revelando camadas: sinergias entre bênçãos, escolhas de armas, formas diferentes de construir seu estilo de jogo, upgrades permanentes, desafios opcionais e um monte de microdecisões que fazem cada run ser única. E tudo isso embalado por uma apresentação incrível, que parece feita para te deixar empolgado o tempo todo.
Mecânicas e Jogabilidade
A base de Hades é ação rápida com visão isométrica, combate em arenas e progressão por salas. Parece simples, mas o jogo tem uma “pegada” extremamente afinada. A movimentação do Zagreus é responsiva, o dash é viciante e, desde as primeiras salas, eu já estava fazendo aquela dancinha de entrar, bater, sair, reposicionar e castigar inimigos quando eles erram o timing. A sensação é de controle total, e isso é essencial em um jogo em que morrer faz parte do processo.
Cada run começa no mesmo lugar, a Casa de Hades, que funciona como hub. Ali você conversa com personagens, escolhe arma, mexe em melhorias e parte para mais uma tentativa. O Submundo é dividido em regiões, cada uma com seu tema, inimigos e chefes, e a progressão é feita por escolhas de portas que indicam recompensas. Esse detalhe, para mim, é um dos motivos do jogo viciar tanto: você está sempre tomando decisões pequenas, mas importantes. Vou atrás de mais vida agora ou pego dinheiro? Pego um recurso de upgrade permanente ou busco uma bênção de um deus específico para tentar fechar uma sinergia?
E aí entra o coração do gameplay: as armas e as bênçãos. Hades não te prende em um único estilo. As armas mudam completamente o ritmo do combate. Tem opções mais rápidas, mais pesadas, mais focadas em alcance, em arremesso, em disparo contínuo, em controle de área. E mesmo dentro de uma arma, existem variações e aspectos que alteram propriedades e abrem outras possibilidades. Eu senti que o jogo me incentivou o tempo todo a experimentar. Não é só “qual arma dá mais dano”, é “qual arma combina com o jeito que eu quero jogar nessa run”.
As bênçãos dos deuses do Olimpo são o tempero que transforma cada tentativa em algo diferente. Você recebe habilidades que modificam ataque, especial, cast e dash, e isso sozinho já cria uma variedade enorme. Mas o que me fez ficar rindo sozinho foi perceber as combinações. Um ataque que aplica um efeito, um dash que espalha outro, um cast que prende inimigos e um “boon” que aumenta dano contra inimigos com status. De repente, eu estava montando uma build que parecia planejada, mesmo que tenha nascido no improviso. E quando o jogo te dá aquelas “duo boons” especiais por combinar deuses específicos, a sensação é de ter desbloqueado um segredo poderoso.
Outro ponto forte é como o combate conversa com leitura de padrões. Os inimigos não são só “sacos de pancada”. Tem inimigo que te pressiona, inimigo que zonifica a arena, inimigo que enche a tela de projéteis, inimigo que tenta te cercar. Em runs mais avançadas, eu precisei jogar com atenção real, usar pilares, aproveitar invencibilidade do dash, controlar a distância e escolher alvos prioritários. E os chefes são um show à parte: eles têm fases, mudanças de comportamento e ataques bem telegrafados, então cada derrota ensinava algo. Eu perdia e pensava “ok, agora eu entendi”, voltava mais forte e passava da parte que antes parecia impossível.
A progressão permanente é gostosa porque respeita seu tempo. Você coleta recursos e vai fortalecendo Zagreus com melhorias que fazem diferença, mas sem apagar o desafio. Eu nunca senti que o jogo virou “modo automático”. Ele te dá ferramentas para ir mais longe, só que a execução ainda depende de você. Além disso, existe um sistema de dificuldade ajustável que permite aumentar o desafio com modificadores quando você começa a dominar as rotas, o que para mim é perfeito: o jogo não acaba quando você “zera”, ele se transforma em um campo de testes para suas builds e sua habilidade.
E falando em história, eu preciso destacar: os diálogos são parte da jogabilidade. Voltar para a Casa e conversar com todo mundo vira recompensa. Eu comecei a me importar com cada personagem, com as brigas, com as alianças, com as provocações, com os dramas. É absurdo como Hades faz narrativa e repetição virarem melhores amigos, porque sempre tem uma frase nova, uma reação diferente, uma informação extra. Eu me sentia dentro de uma série em que eu era o protagonista e cada run era um novo capítulo.
Gráficos
Visualmente, Hades é daqueles jogos que você reconhece em um segundo. A direção de arte é forte, estilizada e cheia de identidade. Ele não tenta ser realista, e isso é exatamente o que faz tudo envelhecer bem. Eu senti que cada região do Submundo tem um “tempero” próprio, com cores, iluminação e detalhes que passam clima e personalidade. Tem áreas mais quentes, mais infernais, outras com tons mais frios e misteriosos, e isso ajuda a quebrar a repetição natural de um roguelike. Mesmo quando eu voltava para uma região que já conhecia, eu não tinha a sensação de “mais do mesmo”, porque o jogo tem variações de salas e uma composição visual que continua bonita de olhar.
Os personagens são um espetáculo. O design de Zagreus, Hades, Nyx, Meg e companhia é cheio de estilo, e cada um tem silhueta marcante, expressão, postura. Eu sempre curti quando o jogo abre o retrato do personagem no diálogo, porque os detalhes do traço e da pintura são muito bons. E o mais legal é que a identidade visual combina com o tom do jogo: é mitologia grega, mas com uma pegada moderna e ousada, sem virar caricatura barata.
No combate, os efeitos visuais das bênçãos ajudam muito na leitura. Isso é importante, porque em jogos rápidos, efeito bonito que atrapalha é um problema. Aqui eu senti o contrário: os efeitos são bonitos e, ao mesmo tempo, informativos. Você entende quando um inimigo está afetado por algum status, consegue distinguir ataques, percebe áreas de perigo, nota a direção de projéteis. É claro que em algumas builds a tela fica um show de luzes, mas mesmo assim o jogo mantém uma clareza bem acima da média.
As animações também merecem aplauso. O Zagreus se move de um jeito fluido, os golpes têm impacto, e os inimigos respondem bem. Eu senti peso quando precisava sentir peso, e agilidade quando precisava ser ágil. Essa consistência visual dá aquela sensação de jogo “polido”, de projeto que foi ajustado mil vezes até ficar no ponto.
No geral, Hades não depende de tecnologia bruta para impressionar. Ele impressiona por estilo, consistência e bom gosto. É aquele tipo de visual que você quer mostrar para um amigo e dizer “olha isso aqui rodando, olha que lindo”, porque ele parece uma graphic novel viva, cheia de energia.
Som
Se eu tivesse que escolher um elemento para definir a “alma” de Hades, eu escolheria o áudio. A trilha sonora é poderosa. Ela não só acompanha o ritmo, ela dita a adrenalina. Tem músicas que entram e eu imediatamente começo a jogar mais agressivo, porque o som te empurra. E quando o jogo quer criar tensão, ele segura a trilha, cria uma expectativa, e quando o combate estoura, a música explode junto. Eu senti isso especialmente nas lutas contra chefes, onde a trilha vira parte do espetáculo.
Os efeitos sonoros também são satisfatórios. Cada arma tem um som característico, cada impacto tem um “estalo” gostoso, e os poderes dos deuses têm identidade sonora própria. Isso ajuda até a jogar melhor, porque você aprende a reconhecer sons de ataque inimigo, sinais de perigo e janelas de oportunidade. Em runs intensas, o som virou uma camada extra de informação, não só um enfeite.
E aí tem a dublagem, que é absurda de boa. Os personagens têm voz, atitude, sarcasmo, cansaço, raiva, carinho. O Zagreus tem um tom perfeito de protagonista que é confiante, mas também vulnerável. O Hades é intimidador e cortante. E a quantidade de falas é enorme. Eu fiquei impressionado com o quanto o jogo continua apresentando diálogos novos por muitas e muitas horas. Isso é uma das coisas que mais mantém a magia viva: você nunca tem a sensação de que os personagens viraram bonecos repetindo a mesma frase.
A mixagem é bem equilibrada. A trilha é marcante sem engolir os efeitos, e as vozes se destacam quando precisam. Para mim, foi um daqueles raros casos em que eu aumentava o volume para curtir mais, não só para “ouvir direito”.
Diversão
Hades é diversão em forma de loop perfeito. Ele entende que, em roguelike, o segredo não é só variedade, é ritmo. Você entra, faz escolhas, luta, recebe recompensas, melhora, descobre algo novo, morre, volta e imediatamente quer tentar de novo. E o jogo faz isso sem parecer um trabalho. Mesmo quando eu perdia uma run promissora, eu voltava para a Casa e tinha conversa nova, alguma reação ao que eu fiz, uma missão avançando, um presente para entregar, um personagem para conhecer melhor. Então o “fracasso” virava história, e isso é genial.
Eu também me diverti muito com a sensação de aprendizado real. No começo eu tomava pancada e achava que alguns chefes eram injustos. Depois, eu percebia que eu estava sendo impaciente, ou que eu estava escolhendo bênçãos sem pensar, ou que eu estava gastando recursos errado. Quando eu finalmente venci certas barreiras, foi mérito meu, não só do upgrade. Esse tipo de desafio é o que faz a vitória ter gosto.
O jogo também te dá liberdade para buscar seus próprios objetivos. Tem run em que eu queria simplesmente testar uma arma nova. Tem run em que eu estava caçando uma combinação específica de deuses. Tem run em que eu estava tentando completar uma missão de relacionamento com um personagem. Tem run em que eu só queria sentir o combate fluindo. E todas essas abordagens funcionam, porque o jogo sustenta tanto a camada mecânica quanto a camada narrativa.
E o humor é um tempero importante. Hades sabe ser sério quando precisa, mas ele também tem aquela ironia inteligente, aquelas alfinetadas entre personagens, aquele drama familiar mitológico com uma cara muito humana. Eu ri várias vezes com comentários do narrador, com respostas atravessadas do Zagreus e com a forma como o jogo reage às suas decisões.
No fim das contas, a diversão de Hades é constante porque ele é generoso: sempre tem algo para desbloquear, alguma conversa nova, uma arma para dominar, um desafio para aumentar. Ele respeita seu tempo e ainda te provoca a melhorar.
Performance e Otimização
Na minha experiência, Hades é extremamente bem otimizado para o que ele se propõe. Mesmo com muita coisa acontecendo na tela, vários inimigos, efeitos de poderes, projéteis e explosões, o jogo se mantém estável e agradável de jogar. Isso é crucial, porque em um jogo tão rápido, qualquer travadinha pode virar uma morte injusta.
Os tempos de carregamento são bem administrados, a transição entre salas é rápida o suficiente para manter o ritmo, e a resposta dos comandos é firme. Eu senti que o jogo “ouve” o que eu aperto, e isso é a diferença entre um combate justo e um combate frustrante. E em Hades, quando eu morria, quase sempre eu sabia o motivo. Eu errei o tempo, eu fiquei ganancioso, eu entrei em uma área perigosa, eu não respeitei o padrão do chefe. Eu raramente senti que foi culpa do jogo.
Outro ponto positivo é que o jogo consegue ser bonito e claro sem pesar a ponto de virar bagunça. A legibilidade se mantém, e isso também é parte de otimização, não só de desempenho. É otimização de experiência. Eu sempre consegui entender o que estava acontecendo e tomar decisões rápidas.
No geral, é o tipo de jogo que passa uma confiança enorme. Você sente que está jogando algo muito bem construído, muito bem testado, e com um cuidado técnico que sustenta o design.
Conclusão
Hades foi uma daquelas experiências que me fazem lembrar por que eu amo videogames. Ele pegou um gênero que já tem muita concorrência e trouxe personalidade, narrativa, carisma e um combate refinado a um nível que vira referência. O mais impressionante é que ele não é bom “apesar de ser repetitivo”, ele é bom justamente porque ele abraça a repetição e transforma isso em história, em progressão e em motivação.
Eu saí do jogo com a sensação de ter participado de algo completo. Não é só vencer chefes e chegar ao final. É construir um caminho, entender personagens, montar builds absurdas, aprender com derrotas e sentir que cada tentativa tem valor. A direção de arte é marcante, o som é um show, e a jogabilidade é tão gostosa que, quando encaixa uma build forte, você se sente invencível, e quando o jogo te derruba, você volta com ainda mais vontade de provar que consegue.
Eu recomendo Hades com força para praticamente qualquer pessoa que curta ação, desafio justo e jogos que respeitam sua inteligência. Mesmo quem acha que não gosta de roguelike pode se surpreender, porque aqui a história e os personagens são um gancho poderoso, e o combate é prazeroso desde o primeiro minuto. Se você gosta de jogo que te dá vontade de jogar “só mais uma” até perder a noção do tempo, Hades é obrigatório.
Pontos positivos
- Combate extremamente responsivo, rápido e satisfatório
- Variedade enorme de builds com as bênçãos e sinergias entre deuses
- Narrativa integrada ao loop de morrer e tentar de novo, funcionando de verdade
- Personagens carismáticos, diálogos inteligentes e muita dublagem de qualidade
- Direção de arte estilizada e consistente, com ótima legibilidade no caos
- Trilha sonora marcante e efeitos sonoros com impacto
- Progressão permanente bem equilibrada, mantendo o desafio relevante
- Conteúdo e rejogabilidade altíssimos, com desafios extras para quem domina
Pontos negativos
- Pode viciar muito e “roubar” horas sem você perceber
- Algumas runs podem depender um pouco da sorte para fechar a build dos sonhos
- Quem não curte repetição por princípio pode demorar mais para “clicar” com o loop
- Em builds muito chamativas, a tela pode ficar visualmente intensa, mesmo mantendo boa leitura
Avaliação:
Gráficos: 9.5
Diversão: 9.8
Jogabilidade: 9.7
Som: 9.6
Performance e Otimização: 9.4
NOTA FINAL: 9.6 / 10.0
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