Jurassic World: Recomeço – Análise Crítica

Jurassic World: Recomeço – Análise Crítica

8 de julho de 2025 Off Por Markus Norat

Sentei na poltrona do cinema sem grandes expectativas. Depois de Jurassic World: Domínio, confesso que meu entusiasmo pela franquia estava enterrado em âmbar. Mas Jurassic World: Recomeço prometia uma nova direção. Um título sugestivo, um elenco estrelado e um diretor competente – Gareth Edwards, que sabe lidar com escalas gigantescas – me faziam torcer para que este novo capítulo me surpreendesse. E, de fato, surpreendeu… em partes. Vi um filme que tenta ser reboot, homenagem, renovação e encerramento ao mesmo tempo – e nessa tentativa, entrega uma experiência mista, ora empolgante, ora cansativa.

Enredo e estrutura narrativa

A história parte de uma premissa intrigante: os dinossauros, outrora motivo de fascínio mundial, agora são apenas inconvenientes da paisagem. Esquecidos, subestimados, quase folclóricos, vivem isolados na fictícia Île Saint-Hubert, um novo laboratório de segredos genéticos e escavações éticas.

A missão é simples e direta: uma equipe composta por mercenários, cientistas e um paleontólogo é enviada clandestinamente à ilha para extrair sangue de três espécies gigantes, com fins farmacêuticos (ou seja, lucro acima de tudo). E como manda a cartilha da franquia, tudo dá errado. A natureza dá o troco. Humanos viram presa.

Até aqui, tudo bem. O roteiro começa com uma energia promissora, até evocando certo charme B de filme de monstro clássico, com uma ambientação sonora sombria e uma fotografia opressora. Porém, após os primeiros 40 minutos, a narrativa mergulha num ritmo errático, dividido entre duas tramas paralelas que parecem se ignorar: a missão principal e uma família perdida, resgatada no mar e que termina na ilha por acaso.

Enquanto a missão do DNA se esforça para manter a tensão, a trama da família Delgado soa deslocada. Não há entrelaçamento emocional entre os núcleos – tudo acontece em paralelo, como se fossem dois filmes que se cruzam apenas por obrigação contratual. Isso mina o impacto dramático, dilui a urgência e torna o filme mais inchado do que deveria.

Personagens: Quando os dinossauros têm mais carisma que os humanos

Scarlett Johansson, no papel de Zora Bennett, entrega uma performance sólida como a agente fria, pragmática e ferida por traumas do passado. Seu carisma segura o protagonismo, e suas cenas de ação funcionam, mas o roteiro não lhe dá muita profundidade além do arquétipo da anti-heroína durona. Mahershala Ali, como o capitão Duncan, é magnético em tela e quase sempre rouba a cena com seu carisma descontraído. Os dois juntos funcionam muito bem – e mereciam um filme só para eles.

Jonathan Bailey interpreta o paleontólogo Henry Loomis com ternura e idealismo. Sua paixão pelos dinossauros, inclusive uma cena onde ele se emociona ao tocar um brontossauro, humaniza o personagem e oferece a única verdadeira conexão emocional com os animais que justificam o título da franquia.

Infelizmente, os demais personagens oscilam entre o raso e o descartável. Rupert Friend, como o vilão farmacêutico, é estereotipado e pouco ameaçador. A família Delgado – Reuben, suas filhas e o namorado desinteressante – está no filme apenas para preencher tempo e trazer um elemento de “drama familiar” que nunca se conecta ao enredo principal. Sua presença poderia ser completamente cortada sem prejuízo à trama – e talvez com algum benefício.

Dinossauros, finalmente os verdadeiros protagonistas?

Se tem algo que o filme faz bem, é tratar os dinossauros como mais do que figurantes digitais. Em Jurassic World: Recomeço, eles ganham personalidade, presença e respeito. Há uma variedade de criaturas exibidas com criatividade: o retorno triunfal do T-Rex, o Mosassauro em momentos de tensão aquática, e até um bebê Aquilops adorável que serve de alívio cômico e emocional.

Mas o grande destaque é o Distortus Rex, uma aberração genética que parece saída de um pesadelo entre Alien e um T-Rex com traços de Kaiju. Embora sua escala varie em algumas cenas e seu papel seja inconsistente, sua presença evoca medo e instabilidade. É o símbolo da arrogância humana em manipular a natureza.

As cenas de ação com os dinossauros são bem coreografadas, com boa montagem e efeitos de tirar o fôlego. A sequência no barco, por exemplo, é um espetáculo tenso e envolvente, que mostra o melhor do que Edwards sabe fazer: criar suspense em larga escala com o mínimo de diálogo.

Direção, estética e trilha sonora: Gareth Edwards e o peso da responsabilidade

Gareth Edwards imprime sua marca visual com competência. Os cenários são vastos, belos e opressivos quando necessário. Há uma paleta de cores tropical, saturada, que contrasta com a escuridão dos laboratórios e das cavernas escondidas da ilha. A direção de arte é um ponto forte.

A trilha sonora de Alexandre Desplat, no entanto, não atinge o nível de impacto emocional de John Williams. Em muitos momentos, ela serve apenas como pano de fundo. O filme tenta emular o tom de maravilhamento do original de 1993, mas falha ao não ancorar suas cenas icônicas no ponto de vista dos personagens – como acontece na famosa cena do Brachiossauro em Jurassic Park. Em Recomeço, o equivalente ocorre de forma aérea, desconectada da emoção do elenco em cena. Um erro que compromete a imersão.

Conclusão: Recomeço ou repetição?

Jurassic World: Recomeço não é um desastre. Tem boas atuações, dinossauros em destaque, cenas de ação competentes e momentos de espetáculo. Mas também é um filme que hesita, que tenta agradar todas as frentes ao mesmo tempo e, com isso, entrega um produto seguro demais para ser memorável.

Como fã da franquia, saí do cinema dividido. Vi lampejos do potencial que um “Recomeço” poderia ter, mas também reencontrei vícios antigos: personagens descartáveis, roteiro repetitivo e mensagens recicladas sobre o poder destrutivo da ganância humana.

Sim, os dinossauros ainda impressionam. Mas talvez seja hora de deixá-los descansar um pouco, para que, no futuro, possamos reencontrá-los com o mesmo encanto de antes.

Recomendado com ressalvas: Se você ama dinossauros e busca uma aventura visualmente impactante, Jurassic World: Recomeço cumpre o papel. Mas se espera um verdadeiro “renascimento” da franquia, prepare-se para encontrar mais uma repetição disfarçada de novidade.


Pontos positivos:

  • Dinossauros com presença forte e criativa
  • Sequências de ação bem dirigidas, especialmente no mar
  • Carisma de Scarlett Johansson e Mahershala Ali
  • Visual belíssimo e direção de arte caprichada
  • Clima de aventura com toques de terror clássico

Pontos negativos:

  • Roteiro previsível e repleto de déjà vu
  • Núcleo da família Delgado completamente desnecessário
  • Ritmo desequilibrado e inchado
  • Falta de inovação real para justificar o título “Recomeço”
  • Trilha sonora funcional, mas esquecível
  • Uso emocional superficial das cenas-chave com os dinossauros

Avaliação:
Roteiro: 5.5
Atuações: 7.5
Dinossauros e efeitos visuais: 8.5
Trilha sonora: 6.0
Direção e estética: 8.0
Diversão geral: 7.0
Nota final: 7.1 / 10

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